segunda-feira, 7 de novembro de 2011

“O burguês ridículo, com adaptação de Guel Arraes e João Falcão, baseado na obra de Molière.

Leiam atentamente, um fragmento do texto “O burguês ridículo, com adaptação  de Guel Arraes e João Falcão, baseado na obra de Molière.
- Busque exercitar várias formas de dizer as falas:
1- Sem pausa alguma, sem pontuação (nem ponto final nem virgula), sem intenções.
2- Em voz baixa, sussurrando, em voz muito alta, gritando. Explore quantas combinações quiser e em diferentes espaços do nosso precioso jardim.
3- Com timidez, envergonhado, nervosamente, alegremente, como um locutor de rádio, como uma canção, com voz lírica etc.
4- dividindo o texto, escolhendo partes para serem ditas rapidamente, outras devagar, ou ainda escolhendo apenas algumas falas que considerar importante  para serem ditas mais devagar.
(Após o exercício, tenho certeza que vocês o farão em casa, estaremos discutindo juntos dia ------ ás ------o humor das cenas, comparando as várias formas experimentadas e os possíveis efeitos cômicos.
TEXTO
M. JOURDAIN – Eu gostaria de aprender a fazer uma reverencia para saudar condignamente a senhora marquesa.
DORANTE – É coisa das mais simples. Se o senhor quiser saudar alguém com muito respeito, deve, primeiro, fazer uma reverencia para trás, depois encaminhe-se na sua direção fazendo três reverencias para frente e, finalmente, curve-se até a altura dos joelhos do homenageado.
M. JOURDAIN – Eu também pensei que durante a reverencia eu poderia deixar cair aos pés da Marquesa...um pequeno bilhete.
DORANTE – São versos que o senhor deseja lhes oferecer?
M. JOUDAIN – Não, não; nada de versos
DORANTE – Apenas prosa, então, então?
M. JOURDAIN – Não, com sua licença, nada de prosa.
DORANTE – Mas é preciso que seja  uma outra coisa, ou outra.
M. JOURDAIN – Por que?
DORANTE – Pela simples razão, meu prezado amigo, que existem, para se exprimir, ou prosa ou versos.
M. JOURDAN – Só existe prosa ou versos?
DORANTE – Pois é: Tudo o que não é prosa são versos; e tudo que não são versos é prosa.
DORANTE –E a maneira da gente falar, o que é isso então.
DORANTE – Isto é prosa
M. JOURDAIN – Como? Quando eu digo: “Nicole, traga os meus chinelos e a minha touca de dormir” isto é prosa?
DORANTE – Exatamente.
M. JOURDAIN – Incrível! Há mais de quarenta anos que eu falo em prosa e não sabia. Senhor Conde, eu serei eternamente grato por esse ensinamento.
DORANTE – E o que o senhor gostaria de escrever nesse bilhete?
M. JOURDAIN – “Bela marquesa, vossos belos olhos fazem-me morrer de amor”;  mas gostaria que isso fosse dito de maneira requintada, que tivesse um porte delicado, como falam as pessoas de qualidade.
DORANTE – Dizer, por exemplo, que “o fogo dos seus olhos reduz o seu coração em cinzas; que o senhor sofre por ela dia e noite as violências de um...”
M. JOURDAIN – Não. Se Vossa Excelência me permitir, eu desejaria escrever aquilo o que disse: “Bela marquesa, vossos belos olhos fazem-me morrer de amor”. Mas, digamos, em linguagem da moda, arranjadas de tal maneira que pareça coisa fina.
DOURANTE – Existem diversas maneiras. Primeiramente, poderíamos arranjar as palavras da forma sugerida pelo senhor: “Bela marquesa, vossos belos olhos fazem-me morrer de amor. Ou então: “De amor morrer me fazem, bela marquesa, vossos olhos”. Uma outra: “Vossos olhos belos, de amor me fazem, bela marquesa, morrer”. Ou ainda: “Morrer, vossos belos olhos, bela marquesa, de amor me fazem”, Temos mais: “Fazem-me, vossos belos olhos, morrer, bela marquesa, de amor. Temos mais...
M .JOURDAIN – Mas, de todas, qual è a melhor?
DOURANTE – A que o senhor disse: “Bela marquesa, vossos belos olhos fazem-me morrer de amor”.
M. JOURDAIN – E olhe que saiu-me de improviso, assim, de estalo.
DOURANTE – O senhor saiu-se muito bem. As aulas que tem tomado começaram a surtir efeito
(O burguês ridículo, Adaptação de Guel Arraes e João Falcão, Sette Letras, 1996)

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